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TheDailyMan

Nasceu e vive na terra mais linda de Portugal (como diz a música!). Agnóstico, divorciado, professor, brincalhão e quarentão. Gosta de cozinhar, de preferência rodeado de amigos! Gosta de amar, ser amado e de se divertir.

Nasceu e vive na terra mais linda de Portugal (como diz a música!). Agnóstico, divorciado, professor, brincalhão e quarentão. Gosta de cozinhar, de preferência rodeado de amigos! Gosta de amar, ser amado e de se divertir.

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03
Nov19

O fim de uma relação

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Já andava há algum tempo para escrever este post. Este é "o" post" onde quero partilhar as várias situações que me foram surgindo ao longo do meu casamento. Outro farei com especial foco nestes últimos, quase, 4 anos. E queria partilhar porque este blog funciona como uma catarse, em 1º lugar, e também de certa forma "ouvir" o feedback de pessoas que tenham passado por situações idênticas e comunguem destes sentimentos. Sempre acreditei que é na partilha da dor e sentimentos que ficamos mais leves e ganhamos forças para novos desafios...e as relações nesta idade são um verdadeiro desafio!

Há 4 anos atrás estava a acabar praticamente um casamento com cerca de 13 anos mais 7 de namoro, ou seja, uma relação com quase 20 anos. Uma relação com um namoro feito à distância, eu do Porto ela de Lisboa. Ela católica praticante e eu agnóstico convicto. Quando acabei o curso fui trabalhar para uma multinacional e estava a 5m de casa. Levava uma vida quase perfeita: estava a fazer o que eu queria, ganhava bem, estava com a minha família e amigos e estava na minha cidade. Ela também acabou o curso e arranjou emprego facilmente. Tivemos poucos problemas neste namoro: praticamente as questões religiosas, e os seus impactos na sexualidade, e chega! Não conseguimos conhecer ninguém, verdadeiramente, neste tipo de relação! Passados quase 7 anos de namoro falamos de casamento e eu vou para Lisboa trabalhar. Para tal, despeço-me, pago uma indemnização à minha empresa, mudo de área e vou para Lisboa dar aulas! Para trás fica a minha vida: os meus pais, o meu irmão mais velho (doente), os meus amigos e a minha cidade, onde nasci, literalmente, e vivi praticamente até aos meus 30 anos! Foi uma sensação agridoce, mas, na altura, mais doce pois seguia o coração e ia morar com a minha mulher. Tinha casado nesse ano e ia com tudo! Ia com toda a ilusão! Os anos seguintes foram de descoberta: comecei a conhecer a minha mulher de uma forma que até então não conhecia, apesar de alguns amigos e familiares terem visto alguns sinais. Eu comecei a sentir-me, aos poucos, um peixe fora de água. Entretanto veio o meu filho e com isso meses seguidos sem conseguir dormir. O stress aumentou e para ajudar à festa demorava perto de 90m a chegar à escola em Lisboa. Vinha muitas vezes ao Porto, não só para concluir o meu mestrado na altura, mas também para respirar um pouco e estar com a família e os amigos e matar saudades da minha terra. É impressionante como podemos ter saudades de um sítio e nos identificarmos tanto com ele! Nestas viagens vinha sempre com o meu cão. A minha ex-mulher ficava em Lisboa com o meu filhote e só nas férias é que vinha! Falava com ela sobre isso pois gostava que viéssemos todos, em família, mas a minha ex-mulher é uma pessoa dedicada ao trabalho e à casa, sendo uma mulher mais fria que eu. Eu sempre fui muito sociável, gosto de estar com amigos! Aos poucos fomos acentuando as nossas diferenças, a parte social e a intimidade eram os principais temas das nossas conversas, apesar de nunca termos tido verdadeiras discussões pois não temos feitio para isso.

Entretanto morre o meu irmão, algo que sendo um pouco previsível não estava preparado (ninguém se prepara para isso efetivamente). Com a morte do meu irmão senti o chão a tremer. Emocionalmente fiquei de rastos. Andei a chorar semanas e sonhava com ele frequentemente. Tinha uma relação muito cúmplice com o meu irmão. Era mais velho quase 5 anos e falava sempre com ele sobre as minha angústias e dúvidas. Era um ídolo para mim, um porto de abrigo, desde que me conheço. Era com quem desabafava sobre tudo! Um verdadeiro irmão. E foi parte de mim que morreu. De certa forma culpei-me a mim próprio por ter vindo para Lisboa pois sempre que vinha ao Porto estávamos juntos e quando partia pensava sempre se era o último abraço que lhe dava. Passados uns meses, eu e minha ex-mulher entramos em conflito por uma coisa verdadeiramente insignificante (deixei uma louça por lavar de um almoço, enfim…) e ela chegou a casa do trabalho e mandou umas bocas. A coisa aqueceu, discutimos, e andamos meses sem intimidade…é engraçado como as mulheres sabem foder a cabeça a um homem quando querem! Se já estava emocionalmente desequilibrado, mais fiquei ainda. Os meses seguintes foram dos piores da minha vida: comecei a questionar todo o esforço e dedicação que tinha posto nesta relação e tudo estava a ir por água abaixo! Entretanto tive que sair de casa pois estava a começar a procurar fora o que não tinha em casa. E não falo de sexo, falo de tudo o que uma relação deve ter. Envolvi-me emocionalmente com uma pessoa que esteve a trabalhar na mesma escola que eu e que durante um ano nem olhei para ela. Só quando estive mal é que comecei a olhar para o lado efetivamente. Não queria envolver-me fisicamente com ela estando a morar ainda na mesma casa que a minha ex-mulher, apesar de na altura já estar a dormir no escritório. A minha ex-mulher pensou que eu já andava com ela e disse para eu procurar casa. Liguei para uma amiga minha que também estava a dar aulas em Lisboa e fui viver para a casa onde ela estava com outra colega. Tinha um quarto livre e por lá fiquei. Comprei um colchão no Ikea, dormia no chão e segui a minha vida. Comecei, entretanto, uma relação com essa minha colega. Fui viver com ela passado alguns meses pois tive que ser operado e perdi a mobilidade temporariamente, e como ela morava ao lado da escola fui para lá. Eu, ela e os seus dois filhos. Nessa altura, quando estava com o meu filho sentia uma dor de alma terrível. Ele tinha perto de 3 anos e eu, como tinha passado muito tempo com ele, de repente, passar a vê-lo só aos fins de semana foi um corte radical para mim. Não estava preparado, nem para entrar numa família nem para estar sem o meu filho! E passados uns meses acabámos. Acredito, agora, que foi, em parte, uma relação que tive para suprir as minhas necessidades na altura. De amor, de afeto, de carinho, etc. Mas não era a altura para entrar numa nova relação, muito menos numa nova família! Voltei, então, para a casa da minha ex-mulher. Para mim, a maior lacuna era não ter o meu filho comigo e por ele voltei para a minha ex-mulher. Não queria saber de mais nada na altura. E depois de voltar para o meu filho estabilizei emocionalmente e encontrei-me com ele. Não cheguei a divorciar-me na altura. Andei uns meses relativamente bem, apesar da minha relação com a minha ex-mulher não ter mudado muito, pois os feitios quase nunca se alteram. E voltei novamente, paulatinamente, à mesma sensação de peixe fora de água. Meses mais tarde chega um momento marcante na minha vida que era o concurso de professores e tinha de concorrer. Foi um momento em que pensei nos últimos anos da minha vida, no que tinha perdido, no que tinha ganho e, essencialmente, no que queria para o meu futuro. Tinha basicamente duas alternativas: ou concorria para Lisboa e ficava perto do meu filho, mas tinha uma relação onde não era feliz, ou arriscava e concorria para o Porto, para o meu porto seguro.  Havia ainda a questão de que se não concorresse para o Porto naquele ano, muito provavelmente nunca iria conseguir ir para cima tão cedo pois as vagas eram cada vez menos. Tinha passado por muita coisa nos últimos anos: desde privação financeira (é verdade, cheguei a comer massa com queijo ralado por cima várias vezes) até à falta de amor que me levou a um desequilíbrio emocional terrível. E até cheguei a ter pensamentos negativos tendo colocado em questão a própria existência (lembro-me de passar por vezes na ponte 25 abril e esse pensamento estar presente). Não sei se cheguei a ter depressão, mas foi algo semelhante, e para isso contribui a ilusão de um casamento falhado, a morte do meu irmão, o estar num sítio que não me dizia nada, etc. Mas felizmente sempre superei as coisas, e muito devo, não só à minha família, mas também aos meus amigos e amigas por isso! Depois de analisar tudo numa balança, optei pelo racional e concorri para o Porto, tendo entrado numa escola perto de casa. Foi um momento difícil para mim e novamente tive aquele sentimento agridoce: ia finalmente para casa, para junto da minha família e amigos, para a minha terra natal, mas simultaneamente ia deixar o meu filho, na altura com 4 anos. Falei com a minha ex-mulher e disse sinceramente que ia, mas que por mim continuava no casamento, tanto que isso me iria proporcionar estar com o meu filho. E gostava dela ainda, é verdade, apesar de saber que não era a relação que me fazia feliz. E assim andámos novamente durante anos. Lá ia eu aos fins de semana para Lisboa e estava com eles. Tinha um pouco dos dois mundos: estava a trabalhar e a morar onde queria e estava ao fim de semana com a minha família, em especial com o meu filho. Sei que parece estranho perceber isto, eu próprio a escrever isto sinto-me desconfortável, mas é a verdade, nua e crua. Passados uns anos ainda falámos em ela vir para o Porto trabalhar e andámos a ver casas. Punha defeitos em tudo e percebi que não estava nem para aí virada. Agora compreendo-a porquê. Acho que ela sentiu o que eu senti quando vim para o Porto, percebeu que efetivamente a relação não tinha muitas bases e não quis dar aquele passo, apesar de ser entre a mesma empresa, ou seja, tinha pouco a perder. Entretanto nesse ano conheci uma colega e comecei a gostar dela. Tive aquela sensação de ter alguém que finalmente partilhava comigo a mesma visão da vida, parecia a minha alma gémea. Estivemos quase meio ano num amor platónico pois nunca nos envolvemos fisicamente, mas emocionalmente estávamos 100% ligados. E eis que chega novamente um momento marcante para mim: ou acabo a relação de vez, separo-me e tento ser feliz com esta nova pessoa, ou continuo na relação e deixo assim passar uma oportunidade de tentar ser feliz. Falo com a minha ex-mulher para, pela última vez, tentar perceber se algum dia virá para o Porto. Digo que não sou feliz na relação, apesar de ela o saber perfeitamente. Acho que ela sempre o soube, mas para ela a relação que tinha comigo, apesar de não ser perfeita, permitia-lhe fazer as coisas para as quais ela dava prioridade: o trabalho. E foi nessa conversa que ela finalmente se abriu comigo e disse que tinha prioridades na vida: o trabalho, os pais dela e a escola do filho. Eu obviamente passei o filme para trás e pensei no que tinha abdicado para me casar com ela, no que tinha passado nos últimos tempos e disse-lhe que então, iria tentar procurar ser feliz pois não o era naquela relação. Lembro-me de nesse fim de semana termos feito amor de uma forma especial: foi como se nos estivéssemos a despedir um do outro e agradecer por tudo o que de bom tivemos (sim, porque também tivemos obviamente momentos bons). Foi especial para mim esse momento. Senti efetivamente que era o último momento em que me envolvia fisicamente com a minha ex-mulher. E foi efetivamente. Passados 3 meses divorciei-me oficialmente. Foi algo doloroso, não só por ver que tudo foi uma grande ilusão mas principalmente pelo meu filho, que sofreu pela separação. Contudo, eu estava a começar uma relação e a ser amado como nunca tinha sido e isso de certa forma amenizou esse desgosto. E assim acabou uma relação amorosa que perdura na amizade pois será sempre a mãe do meu filho: e não podia ter escolhido melhor pessoa para esse papel!

 

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